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 Joinville Cultura e Arte




Rose Busko
 


As lentes de Rose Busko  captam sempre ternura e arte do mundo que ela observa com poesia.

Rose fotografa com amor e por amor, gerando fotos/filhos sempre encantadores, por isso muitos de seus trabalhos ganham prêmios e  lugares de destaque nas publicações de vários lugares do país.

Também é pintora, escultora e artesã.

Poeta de primeira grandeza, já ganhou muitos prêmios nesta área.

Rose é a irmã que não me foi dada pelos meus pais.  

Edgard Bessa

 

 



Escrito por Rose Busko às 22h48
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ESPREITA

Suas mãos

pássaros descuidados...

pousam inocentes,

depois voam impunes

a perseguir palavras

que o vento recolhe

e leva a lugares

que não percebo.

Mal sabem da serpente

que, oculta, espreita

silenciosa, insuspeita,

olhar atento,

espera o momento...

 



Escrito por Rose Busko às 22h41
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CODICILO

Talvez eu deixe um pouco
do quase nada que tenho.
Deixe um pouco de saudade,
um jogo de porcelana,
com um castelo medieval
estampado na sopeira.
Talvez uma letra de música
de notas indecifráveis
e uma rosa ressequida
dentro de um livro de trovas.
Talvez eu deixe um pouco
do quase tudo que sou.
Uma gotinha de orvalho
suspensa na teia de aranha,
um raio de lua filtrado
entre as folhas da laranjeira,
uma formiga, uma concha,
uma canção sertaneja...
No chão um botão de blusa
e um grampo de cabelo
na fresta do assoalho.
Não sei ao certo o que deixo,
se deixo...
Sei da bagagem que levo,
do gosto no fim da festa,
da solidez do rochedo,
dos meus joelhos sangrados,
da doce ventura de ter sido
e da alegria infinita
de simplesmente ter estado.



Escrito por Rose Busko às 22h39
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METAMORFOSE

Nas ruas que fluíam da noite
já não se cantavam cirandas.
Aos poucos se foram as meninas
e suas cantigas de roda.
Nas faces cálidas, infantis,
brilhavam olhos inocentes,
por onde espreitavam mulheres
insuspeitas...
As ruas que fluíam da noite
ficaram de vez vazias.
As areias da rua escorreram
entre os dedos sutis das horas
e quando amanheceu,
o sol e o vento brincaram
nos cabelos das quase-mulheres.
No decorrer do dia tornaram-se
mulheres feitas, fartas, fortes...
Nas ruas que fluíam da noite
já não se cantavam cirandas.
Aos poucos vieram mulheres
e suas canções de ninar.
Tinham olhos de gazela,
por onde espreitavam meninas
que cantavam contigas de roda
nas ruas que fluíam da noite.


Escrito por Rose Busko às 22h37
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INGAZEIRO

O ingazeiro cansado
 debruçou-se  no riacho
e o rio embalou seus ramos
murmurando cantilenas
tomado pela doçura
de suas vagens morenas
.

Escrito por Rose Busko às 22h36
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ELO

Quebrado o colar,
rolam as pérolas.
Frias reticências...
Caem sobre as poltronas,
ocultam-se sob os móveis.
Ali permanecem imóveis.
Meu peito lanhado,
vã tentativa...
Um colar rebentado,
um começo sem fim...
Um colar rebentado,
Uma história sem mim...
Em cada móvel,
em cada canto,
nas contas caídas no chão,
no punhado que lateja,
que aperto com força na mão.
Rolam as pedras...
Lágrimas de pedras
rolam dos olhos meus.
De tão velhas, pedras.
De tão secas, pedras.
Sem mais meus contos-de-fada,
sem mais teu doce domínio.
Quebrado o elo em meu peito,
falece em mim teu fascínio.


Escrito por Rose Busko às 22h35
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PEDRAS

Já não quero a palavra
madurada em tua boca.
Antes a boca risada,
sem compromisso com a graça,
límpida, legítima, louca...
Já não quero nada sério,
já não tenho mais idade.
Não posso ter paciência,
nem calma e nem saudade.
O que passou jaz morto,
Assim como as horas jazem.
Já não fazem diferença,
nem diferença fazem...
Talvez eu queira somente,
num momento meio insano
mergulhar a própria alma
como quem mergulha um pano
num rio de águas correntes
e adormecer como as pedras,
em silêncio... eternamente
.

Escrito por Rose Busko às 22h34
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MUSAS

São musas de versos e traços
Que têm nas bocas melaço
E almas de seiva e fibras.
Refazem gestos, abraços,
penduram o coração no engaço,
Que pende nas mãos dos deuses.
São feiticeiras dos dias,
Reinventando alquimias
Em caçarolas de lua.
São trocadeiras, ciganas
A barganhar filigranas,
Sementes, contas, capiás...
Fiandeira de brancas núvens,
Tecelãs de mágicas tramas,
A urdir manhãs de sol
Pro orvalho que sonha na grama.
Musas de mãos encantadas
Que tecem, que urdem, que tramam,
E recriam a própria essência,
Que vestem de luzes a noite
E a ânsia de paciência.
Que bendizem a luz e as trevas,
Que são serpentes e evas,
Na fusão da vida e morte.
Que tecem, que fiam e moldam,
Que sonham, riem e tramam,
Que são deusas e são musas,
Que são mulheres e amam.


Escrito por Rose Busko às 22h33
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A CASA

A casa cheirava alfazema
e o vento brincava nos cantos.
Não era brisa ou corrente,
não era frio ou quente,
às vezes um quente frio.
Não tinha rumo ou assento,
era só criança-vento,
menino vento vadio.
A mulher cantava na casa
e seu filho tinha asas
pra voar pelos quintais.
Uma casa bem pequena
que cheirava alfazema...
Uma casa, um passarinho,
um menino e um pomar.
Às vezes a casa voava
nas asas do tal menino.
Ia subindo, subindo...
sumia de tão pequena!
O ar...
ficava carregadinho
de perfume de alfazema!


Escrito por Rose Busko às 22h31
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PRECE

No balanço da rede
o dia adormece.
A cigarra canta a canção das flores.
Eu canto uma canção
que desconheço
e penso ser a mais linda
que já inventei.
No meu peito
minha filha sonha
e sorri,
enquanto os lírios,
pequenos cálices dourados,
transbordam primavera
nos canteiros.
Amém.


Escrito por Rose Busko às 22h28
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MOÇA BONITA

Quem é essa moça bonita
que caminha ao meu lado?
Que tem a leveza das garças
e o sorriso de lua-cheia?
Quem é essa moça bonita?
de onde vem essa Iara,
que enche de brilho meus olhos
e faz essa noite tão clara?
vai fiando, vai tecendo,
meadas, tramas de estrelas
e depois borda, ligeira
com fios de luz tão fininhos
qual mágica bordadeira
as margens do meu caminho.
Que vai salpicando os ares
com centelhas de magia,
que me fala com doçura
e me ensina a fazer poesia.
Quem é essa moça bonita
que caminha ao meu lado?
Que é sempre tão benvinda
quanto o sol ao se abrir a janela.
Ah... no dia em que eu crescer,
quero ser bonita assim...
bonita assim... como ela!


Escrito por Rose Busko às 22h28
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QUARANDO

Sobre a grama dos meus dias
estendi todos os sonhos.
Debrucei todas as mágoas,
estiquei todos os planos

Imensa colcha de retalhos
de mim, sob o sol
dos meus anseios.

Depois de recolhidos
não consegui mais um jeito
de arrumá-los como antes,
de dobrá-los um a um
e guardar de volta no peito
.

Escrito por Rose Busko às 22h27
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BENDITAS MULHERES

Benditas essas mulheres
da minha terra
Que trazem as faces açoitadas
pelos chicotes dos anos.
Benditas essas mulheres
da minha terra,
que ostentam com orgulho e brilho
as mãos fortes pro trabalho
e as faces coradas de seus filhos.
Que abrigam num só regaço,
dos filhos a energia infinita,
dos maridos infinito cansaço.
Guerreiras silenciosas,
misto de espinhos e rosas.
sem murmúrios, sem lamentos,
cada qual com sua cruz;
Rochas parindo água,
trevas parindo luz.
Em um dia de bendita magia,
numa explosão de luz e flor,
num parto sadio e sem dor,
é capaz, bem capaz,
que uma mulher da minha terra
consiga parir a paz.


Escrito por Rose Busko às 22h26
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COM OS LOBOS


Esta  noite corri com lobos
Na noite escura dos meus desejos
Esta noite ouvi chamados,
uivos, gemidos, sussurros
e arpejos
Esta noite corri com lobos...
Chamei teu nome,
Senti teus beijos...


Escrito por Rose Busko às 22h21
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PARTIDA

Não lhe pedi que ficasse;
seu sonho há muito partiu.
Foi desbravar fronteiras
com suas mãos plantadeiras
onde há terras pra plantio.
Olhei ao redor, a estrada,
vi florescerem canteiros,
sementes na sua chegada.
Fechei na mão o aceno
do adeus que darei jamais...
Você, um barco sereno,
foi calmo, singrando a vida,
deixando vazias as amarras,
perdendo de vista meu cais.







DESPEDIDA


Ah... meu pai...

Morreu tão novo... pele sem vincos...

Olhos cheios de surpresa.

Deixei você pelo caminho...

Lá onde deixei nem é tão longe...

Há pouco ainda carregava sua voz,

seu cheiro de suor, sua camisa xadrez...

Resolvi deixar você

Descansando um pouco de mim...

Ficou lá na beira do caminho

à beira do trigal e do campo de girassóis,

desenhando na areia da estrada...

Talvez eu não volte mais

para buscá-lo

Talvez eu o deixe órfão de mim.

Mas eu volto para avisar que não venho.

Quando eu voltar, trago-lhe meu peão

feito de carretel e minhas caixinhas de fósforos

encapadas de chita vermelhas e amarelas!

Beijarei seu rosto sem vincos

e você vai achar estranho

meu beijo velho

com perfume de maracujá maduro...

Depois eu vou...

Antes que pergunte o me nome

Antes que se lembre quem sou.


Escrito por Rose Busko às 22h20
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